Reforma trabalhista para quem? (Parte 4)
Uma breve crônica,
parte quatro
Em 2017, as ruas gritavam “Fora
Temer!”, mas, à semelhança do ocorrido na França de Macron, quando o que está
em jogo são as reformas liberais, “a democracia não é a rua” – conforme teria
dito o presidente francês. As ruas representam a democracia quando a
conveniência permite – a exemplo de momentos em que certas ações políticas
carecem de legitimidade institucional, ou em que estas necessitam recorrer à
soberania popular para obter substância. Foi esse, por exemplo, o caso do
impeachment de 2016, em que a presidente derrubada não teve onde se apoiar
devido aos altos índices de impopularidade de sua gestão – e aos casos de
corrupção envolvendo quadros de seu partido e de partidos da base aliada do
governo. As passeatas nacionalistas ocorridas aos domingos, que ocuparam as
ruas de grandes cidades do Brasil, em março de 2016, em protesto contra a
presidência de Dilma Rousseff, atestavam a impopularidade de seu governo, e
conferiram legitimidade popular ao seu processo de impeachment. Não obstante,
não seria a popularidade que manteria firme no cargo o presidente que lhe
sucedeu – menos ainda a lisura moral de uma administração proba. Muito pelo
contrário. O que havia mudado era a conveniência. E parecia haver certo pacto
social não escrito a respeito.
Enquanto a população estava ainda
extasiada pelo impeachment presidencial – que provocava a sensação de
moralização da coisa pública – o novo governo punha em andamento o programa
reformista que projetava a construção da “Ponte para o Futuro”. O compromisso
com este programa era a real fonte de legitimidade do novo governo,
independente dos escândalos de corrupção que viessem à tona – até porque, o
jogo político permanecia nebuloso, e a prioridade passou a ser a restauração da
estabilidade institucional (conforme o discurso oficial). Portanto, fiado em
tal compromisso programático, o novo governo apresentou à Câmara dos Deputados,
em 23 de dezembro de 2016, a proposta de reforma trabalhista, por meio do PL
6787/2016, de autoria do Poder Executivo Federal, que visava efetuar alterações
na CLT (que vigora no Brasil desde sua criação, em 1943) e nas leis nº
6019/1974, 8036/1990 e 8212/1991 (que haviam feito adequações na legislação
trabalhista, até então). A relatoria do projeto de lei que visava efetuar a
reforma trabalhista foi entregue ao deputado Rogério Marinho (PSDB/RN), que
exercia liderança na Frente Parlamentar Mista em Defesa do Comércio, Serviços e
Empreendedorismo (Frente CSE). Esta última havia se instalado no Congresso
Nacional desde 9 de abril de 2015, com apoio da UNESC (União Nacional das
Entidades do Comércio e Serviços) e da ABRAS (Associação Brasileira de
Supermercados) que, juntas, obtiveram adesão de 250 deputados e 21 senadores
(cerca de 1/3 do Legislativo Federal), que passaram a compor a Frente CSE, que
servia como interlocutor político de tais entidades[1]. Em termos objetivos, a
Frente CSE atuava como uma espécie de posto político avançado, no Congresso
Nacional, do lobby do setor de comércio
e serviços (atacadistas, proprietários de shopping
centers e supermercados, donos de bares e restaurantes, etc.) – que
representavam cerca de 67,4% do PIB nacional, além de cerca de 70% dos empregos
formais do país (conforme dados da Frente CSE)[2].
Os objetivos declarados da
Frente CSE, conforme seu estatuto formador, eram: simplificação
da carga tributária, desburocratização, regulamentação dos meios de
pagamento, livre iniciativa, estímulo à qualificação profissional,
estabelecimento de acordos bilaterais de comércio e fomento do consumo por meio
do mercado de capitais – tudo isso através de “ações com vistas a aprimorar a
legislação federal, de modo a fomentar o crescimento do setor de comércio e
serviços”[3]. Destaque-se que, da
perspectiva programática da Frente CSE, a simplificação da carga tributária
serviria “para diminuir os custos das empresas de Comércio e Serviços e
favoreceria e muito a geração de empregos” (algo que ecoava na fala oficial do
novo governo, de modo alinhado) e, por outro lado, desburocratizar significaria
“simplificar processos e estimular o empreendedorismo no Brasil, em todas as
áreas: trabalhista, sindical, sanitária, ambiental”[4].
Conforme diria o empresário Fernando Yamada (presidente da ABRAS e coordenador
da UNESC), a Frente CSE tratava-se da oportuna junção entre o empresariado do
setor de comércio e serviços e o Poder Legislativo: “eles nos abraçaram, e
colocamos isso como uma união única, quer dizer, eles são os profissionais da
legislação, e nós somos os profissionais de atender clientes”[5].
Nesse sentido, ao se tornar o relator do PL 6787/2016, o deputado Rogério
Marinho (fundador e líder da Frente CSE), na condição de profissional da
legislação, era a pessoa certa no lugar certo, de modo peculiarmente
conveniente – pelo menos para os sindicatos patronais.
Findado o recesso parlamentar
do ano de 2017, o deputado Rogério Marinho passou a presidir os trabalhos da
Comissão Especial destinada a emitir parecer sobre o PL 6787/2016, cujos encontros
se estenderam por meses, através de debates junto a especialistas e juristas,
em audiências públicas requeridas por parlamentares. Curioso e revelador é o
fato de que, em geral, apresentou-se certo padrão na organização de tais
encontros: de um lado, deputados do PCdoB, do PDT e do PT apresentavam
requerimentos de Audiência Pública com representantes de sindicatos
trabalhistas e da Justiça do Trabalho (como palestrantes) – como CTB (Central
dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), CONTAG (Confederação dos
Trabalhadores da Agricultura), CUT (Central Única dos Trabalhadores), CONTRACS
(Confederação Nacional dos Trabalhadores do Comércio e Serviços), ANAMATRA
(Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho), SINAIT (Sindicato
Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho), etc. – enquanto que, por outro
lado, deputados do PMDB, do PSDB e do DEM requeriam audiências públicas com
representantes dos sindicatos patronais, como FIESP (Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo), FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa
Catarina), FECOMERCIO (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, de
vários estados da federação), CNI (Confederação Nacional da Indústria), ABRASEL
(Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), FENASERHTT (Federação Nacional
dos Sindicatos de Empresas de Recursos Humanos, Trabalho Temporário e
Terceirizado), ABIMAQ (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e
Equipamentos), entre outros[6].
Ficava patente, nesse padrão,
que deputados da oposição (composta pelos trabalhistas, apeados do poder via impeachment,
e seus aliados políticos) buscavam favorecer audiências públicas com opinião de
representantes dos sindicatos trabalhistas, em geral críticos do projeto
reformista, enquanto que os deputados da base aliada do novo governo, conferiam
maior espaço à exposição do ponto de vista dos sindicatos patronais, que eram,
em última instância, os propositores originais de tal projeto reformista no
Brasil. As posições estavam muito claras, bem como os interesses sociais que
cada lado buscava representar. No decorrer do ano, porém, uma diferença sutil haveria
de se desenvolver, em termos de coesão sociopolítica: a aliança entre
sindicatos patronais e frentes parlamentares orientadas por lobbies atuaria de modo convergente e consciente
de seus objetivos econômicos e papel social; por outro lado, os parlamentares
ligados ao movimento trabalhista, derrotados politicamente pelo impeachment,
perderiam gradativamente seus vínculos orgânicos com sua verdadeira base de
apoio histórica: os trabalhadores. Apesar de manterem o apoio institucional do
sindicalismo, a desmoralização social causada pelos sucessivos escândalos de
corrupção dissociaria os trabalhistas do trabalhador comum – algo que seria
percebido apenas tardiamente; se é que foi percebido. Isso significa que a
estrutura para instalação da “Ponte para o Futuro” estava praticamente montada.
De todo modo, os trabalhos da
Comissão Especial para discutir o projeto de reforma trabalhista, encaminhado
pela presidência da república, teve caráter plural, dando espaço a diferentes
atores e grupos sociais envolvidos com o mundo do trabalho, desde sindicatos
patronais e trabalhistas, a políticos e juristas especializados em Justiça do
Trabalho. Ao final dos trabalhos, o relator Rogério Marinho emitiu parecer
favorável ao encaminhamento da proposta, em 12 de abril de 2017, apesar de
vetar algumas emendas parlamentares à proposta, por inconstitucionalidade –
como a que propunha que a assinatura de rescisão contratual seria causa
impeditiva para o ajuizamento de reclamação trabalhista, ou a que propunha
extinguir a alíquota extra de 10% sobre o montante dos depósitos da conta
vinculada do FGTS do empregado despedido sem justa causa. Em seu parecer, o
deputado Rogério Marinho faz a defesa da proposta de reforma trabalhista em
vista da necessidade de “modernizar a legislação trabalhista brasileira”
(interpretada como atrasada), ao mesmo tempo em que refuta a especulação (dos
trabalhistas, na oposição) de que “este Projeto de Lei e esta Comissão teriam
como objetivo principal retirar direitos dos trabalhadores”[7].
Em defesa da proposta de reforma trabalhista, o parecer apresenta dois
argumentos centrais. Primeiro seria a ideia de que a CLT apresenta “excesso de
normas trabalhistas” que geram “insegurança jurídica na contratação do
trabalhador”, criando amarras que desestimulariam os empregadores a efetuar
novas contratações – ao mesmo tempo em que estaria oportunizando certo excesso na
abertura de causas trabalhistas na Justiça do Trabalho, em prejuízo dos
empregadores. Nesse sentido, a proposta seria “estimular a solução
extrajudicial do conflito”, além de fomentar o “fortalecimento das negociações
coletivas”, dando ensejo à “possibilidade de que a negociação coletiva
realizada por entidades representativas de trabalhadores e empregadores possa
prevalecer sobre normas legais”[8].
Em segundo lugar, apresenta-se
o argumento da “modernização”, da necessidade de adequação da legislação trabalhista
à realidade social hodierna, que é a do império do trabalho informal. A causa
do problema é apontada da seguinte forma pelo parecer assinado pelo relator do
PSDB: “A legislação trabalhista brasileira vigente hoje é um instrumento de
exclusão, prefere deixar as pessoas à margem da modernidade e da proteção legal
do que permitir contratações atendendo as vontades e as realidades das pessoas”.
Em uma argumentação peculiar, e amplamente defendida pelo empresariado
brasileiro, o excesso de regulamentação da CLT seria a causa do aumento dos
empregos informais e, assim, a flexibilização da CLT solucionaria o problema.
Na visão do relator, o que se tem é “a legislação trabalhista como geradora de
injustiças, estimulando o desemprego e a informalidade”, pois “a rigidez da CLT
acaba por deixar à margem da cobertura legal uma parcela imensa de
trabalhadores” (os desempregados e/ou submetidos à informalidade). A equação é simples e parte de uma
constatação que viria a se tornar argumentação corriqueira em palanque político
eleitoral: “convivemos com dois tipos de trabalhadores: os que têm tudo –
emprego, salário, direitos trabalhistas e previdenciários – e os que nada têm –
os informais e os desempregados”, o que tornaria necessária “uma modificação da
legislação trabalhista para que haja a ampliação do mercado de trabalho”[9].
Ou seja, em um mercado de trabalho em que 40% do trabalhadores encontra-se na
informalidade, a solução seria flexibilizar a legislação trabalhista de modo a
tornar a informalidade em trabalho formal. Ao invés de adequar-se os trabalhos
ditos informais à letra da lei, adequar-se-ia a lei à informalidade reinante. O
carro chefe do projeto seria a regulamentação do home office (ou teletrabalho) e do trabalho intermitente –
modalidades em que há flexibilização quanto à jornada de trabalho e
remuneração, de modo análogo ao funcionamento do mercado de trabalho
norte-americano. A inspiração, conforme apontado no próprio relatório, viria de
estudos e projeções da Frente CSE, com base no modelo de funcionamento da
economia norte-americana, que apontava que a adoção do trabalho intermitente e
sua regulamentação favoreceria o setor de comércio e serviços, gerando novos
empregos – não nos moldes da CLT, mas da informalidade formalizada. Em linhas
gerais, essa seria a base do argumento validador da proposta de reforma
trabalhista encaminhada pelo governo Temer ao Congresso Nacional.
Enquanto isso, as ruas faziam
barulho. O programa reformista proposto pela presidência de Michel Temer ganhou
ares de impopularidade – mas isso pouco importou, pois não seria a vontade popular
que lhe garantiria a permanência no cargo presidencial; a legitimidade de seu
governo tinha outras bases, que não as ruas. No carnaval de 2017, foliões e
blocos de rua aproveitaram o momento para fazer protestos sob o lema “Fora
Temer!”. Marchinhas carnavalescas e gritos de guerra foram adaptados para
demonstrar a insatisfação popular com o novo governo estabelecido após o
impeachment. Nas grandes capitais do país – como Salvador (BA), Rio de Janeiro
(RJ), São Paulo (SP) e Belo Horizonte (MG) – foliões gritavam “Fora Temer!”, e
ouvia-se multidões cantarolarem: “ai, ai-ai-ai, ai-ai-ai-ai-ai-ai-ai, se
empurrar o Temer cai”; ou, ainda, “Ei, você aí, o Temer vai cair, o Temer vai
cair”[10].
No carnaval, tudo é festa. Mas a coisa ficou séria. Em 15 de março, passado o
carnaval (e tendo o país voltado à normalidade), houve um conjunto de greves e
manifestações pelo Brasil, organizado por sindicatos e movimentos sociais,
contra o governo Temer e seu programa de reformas (tanto a trabalhista quanto a
previdenciária). Em São Paulo, cerca de 200 mil pessoas fecharam parte da
Avenida Paulista, aos gritos de “Fora Temer!” e sob o lema “Esse pato não é o
trabalhador que vai pagar” (em resposta à campanha “Não vou pagar o pato”,
orquestrada pela FIESP). No Rio de Janeiro, onde o evento terminaria em
confronto com forças policiais, registrou-se cerca de 100 mil manifestantes,
que se concentraram na Candelária e fizeram passeata pelas principais vias do centro
carioca. Em Belo Horizonte, outros 100 mil manifestantes foram às ruas. Por
todo o país, em várias cidades, houve paralisações e ocupação de vias públicas,
em oposição ao governo Temer e seu programa reformista[11].
No mesmo dia em que as ruas
gritavam contra o programa reformista do governo, o presidente Temer participou
de evento no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, sobre o lançamento
de um projeto de apoio ao empreendedorismo, a partir de convênio assinado entre
o SEBRAE e o Banco do Brasil (o programa “Empreender Mais Simples: menos
burocracia, mais crédito”) – tratava-se da iniciativa “Senhor Orientador” (com
orientadores do SEBRAE), que contaria com aporte de R$ 8,8 bilhões do Banco do
Brasil e R$ 7 bilhões do BNDES, para o financiamento de novos empreendimentos (para
micro e pequenas empresas)[12].
Neste evento, voltado ao empreendedorismo, o presidente aproveitou a
oportunidade para mandar um recado às ruas, defendendo o projeto de reforma da
Previdência, ao afirmar: “Nós apresentamos um caminho para salvar a Previdência
do colapso”. Ao defender o projeto reformista, o presidente Temer afirmaria que
a reformulação da Previdência não poderia ser “uma coisa modestíssima” para
depois ser refeita[13].
A fala repercutiu de modo negativo, pois significava que pouco importava a
manifestação das centrais sindicais nas ruas, pois o governo seguiria avante em
seus intentos programáticos.
Não obstante, um outro
discurso ganhou espaço na imprensa, em tom de alarde: ao final do dia de
manifestações, o ex-presidente Lula da Silva (que era alvo de investigações da
“Operação Lava Jato”), fez inflamado discurso na Avenida Paulista, tecendo
críticas ao programa reformista de Temer, e deixando claro que seria candidato
à presidência da República nas eleições que ocorreriam no ano seguinte. Em sua
fala, Lula da Silva expôs a narrativa política proposta pelos petistas: “Está
ficando cada vez mais claro que o golpe não foi contra a Dilma e partidos de
esquerda. O golpe dado foi para colocar um cidadão sem nenhuma legitimidade
para acabar com as conquistas da classe trabalhadora”[14].
Expunha-se a tese, veiculada pelos trabalhistas, de que o processo de
impeachment de Dilma Rousseff foi um golpe político para interromper o ciclo de
governos do PT, sem utilizar a via eleitoral. A tese do golpe acabaria não
obtendo repercussão significativa entre a massa de trabalhadores comuns (não
sindicalizados e/ou vinculados a partido políticos), visto que estes
encontravam-se desapontados com os escândalos de corrupção envolvendo quadros
do PT e da base aliada do governo derrubado. De todo modo, pesquisas de opinião
encomendadas por veículos de comunicação, a partir de então, indicavam que as
intenções de voto para as eleições presidenciais do ano seguinte apontavam Lula
da Silva como favorito em todos os cenários possíveis. Apesar disso, a
estratégia política de acoplar a crítica ao governo Temer, e a impopularidade
de seu programa reformista, à tese do golpe e à campanha pela (re)eleição de
Lula da Silva à presidência, acabariam por enfraquecer a adesão da massa de
trabalhadores não politizados (e/ou vinculados a sindicatos) à convocação
popular para ocupar as ruas, protestar e pressionar o governo Temer contra as
reformas propostas. A maré política no país estava mudando lentamente, e a
causa trabalhista, ameaçada pelas reformas propostas, teria dificuldade não
apenas de mobilizar os trabalhadores em defesa própria, mas de ser uma bandeira
política em si mesma.
Como legado do conjunto de paralisações de 15 de março, ficaria agendada, pelas centrais sindicais, uma
greve geral para o dia 28 de abril – data em que se comemoraria o centenário da
primeira paralisação geral ocorrida no país. Talvez isso tenha feito a Câmara
dos Deputados acelerar seus trabalhos. A ideia era fazer aprovar o PL 6787/2016
antes da greve que havia sido convocada. Em 18 de abril (uma terça-feira), foi
convocada uma sessão plenária na Câmara dos Deputados para votar a favor da
aceleração da tramitação da reforma trabalhista. Foi um fiasco: 230 deputados
votaram a favor e 163 contra; era necessário pelo menos 257 votos a favor. A
derrota era simbólica, pois indicava que haveria dificuldade para aprovar a
aguardada reforma seguinte: a da Previdência. Foi uma sessão marcada pela ação
da oposição trabalhista, que obteve sua vitória – uma deputada do PSOL teria
dito: “Passo a palavra ao deputado Rogério Marinho, que é o relator dessa
desgraça”[15].
Porém, em uma manobra parlamentar própria da política brasileira, o novo
presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ), alegou
que faltou o voto de 57 deputados (o total seria de 513), razão pela qual
reapresentou o requerimento de urgência no dia seguinte – em uma ação
parlamentar que seria chamada de “método Cunha” – em uma tumultuada sessão, que
seria marcada por intensa ação governista nos bastidores para reduzir traições
na base aliada (em troca de favorecimentos políticos) e, também, pelo
prolongamento da sessão noite adentro, por mais de duas horas, a fim de
garantir o quórum necessário para votar a medida. Com tal manobra de Rodrigo
Maia, a derrota do dia anterior transformou-se em vitória governista: em 20 de
abril (quarta-feira), foi aprovado o pedido de urgência na tramitação da
reforma trabalhista, com 287 votos a favor e 144 contra[16].
A impopularidade da proposta era tanta que foram necessárias duas sessões
seguidas, e uma manobra difícil de explicar, a fim de aprovar a aceleração da
tramitação do projeto. Perdeu em um dia, ganhou no dia seguinte.
Uma semana depois, em vista da
urgência conseguida, a proposta de reforma trabalhista foi votada pelo Plenário
da Câmara dos Deputados, no dia 26 de abril (a quarta-feira seguinte), tendo
sido aprovada por 296 votos a favor e 177 contra, em mais uma sessão tumultuada[17].
O próximo passo seria o encaminhamento do PL 6787/2016 ao Senado. Ao final da
tumultuada semana, as ruas fariam barulho. Na sexta-feira ocorreria a greve
geral convocada pelas centrais sindicais. À semelhança da paralisação de março,
a greve geral contra as reformas do governo Temer levou milhares de pessoas às
ruas das principais capitais do Brasil, no dia 28 de abril. A insatisfação
popular com as reformas era latente. Todavia, as manifestações terminariam com
alguns lamentáveis casos de enfrentamento entre policiais e alguns grupos de
manifestantes, ao final do dia, no Rio de Janeiro – em cenas que seriam
utilizadas pelos meios de comunicação como modo de chamar atenção para os
exageros de um sindicalismo radical e vândalo (que depreda bancos e incendeia
ônibus). Ficaria famosa, ainda, a fala do prefeito de São Paulo, João Dória (do
PSDB, base aliada do governo), que se pôs contra a greve: “Eu acordo cedo e
trabalho. Eu não sou grevista que dorme, é preguiçoso e acorda tarde. Eu não
sou Jaiminho, não”[18].
Ainda em São Paulo, um grupo de manifestantes foi até a casa de Michel Temer,
localizada na Avenida Pedroso de Moraes, para protestar, tendo sido dispersos
por forças policiais, com bombas de gás lacrimogêneo, jatos d’água e tiros de
balas de borracha. Uma vez mais, o presidente Temer demonstraria que o barulho
das ruas não lhe incomodava. De Brasília, à noite, emitiria nota oficial a
respeito das manifestações e protestos, em que afirmaria: “O
trabalho em prol da modernização da legislação nacional continuará, com debate
amplo e franco, realizado na arena adequada para essa discussão, que é o
Congresso Nacional”[19]. De
fato, na governabilidade burocrática do Brasil, a democracia era o Congresso
Nacional e não as ruas. Em seu comunicado, o presidente embutia ainda uma
crítica sutil à oposição (apoiada pelo sindicalismo, e mobilizadora deste), ao
elogiar o trabalhador comum que luta todos os dias “de forma ordeira e
obstinada” para “superar a maior recessão econômica que o país já enfrentou em
sua história”, em uma “crise que herdamos”[20].
Punha-se em marcha uma batalha de narrativas. Sua arena seria o Congresso
Nacional, os tradicionais meios de comunicação (a imprensa) e as novas mídias
sociais (as diversas páginas de internet, blogs, canais de youtubers, etc.).
Passadas as manifestações do dia 28 de
abril, o presidente faria seu discurso do dia 1º de maio, no qual divulgaria
mensagem aos trabalhadores, defendendo o programa reformista de seu governo:
“Estamos fazendo a modernização das leis trabalhistas e você terá inúmeras vantagens. Primeiro, vamos criar mais empregos. Segundo, todos os seus direitos trabalhistas estão assegurados. Com a modernização trabalhista, aprovada pela Câmara dos Deputados, a criação de postos de trabalho, inclusive para os jovens, ocorrerá de forma muito mais rápida. A nova lei garante os direitos não só para os empregados diretos, como também para os temporários e terceirizados. Todos com carteira assinada.”[21]
Defendia-se, assim, a proposta de reforma
trabalhista, a partir do argumento central de que ela garantiria a geração de
novos postos de trabalho formais ao favorecer o sistema de contratação
temporária e/ou terceirizada. Na prática, tratava-se de legislar sobre a
informalidade e a precarização do trabalho. A mensagem certamente não acalmou
os ânimos da população. Uma nova greve geral havia sido convocada pelas
centrais sindicais, para ocorrer no dia 30 de junho (uma sexta-feira), contra
as reformas da Previdência e trabalhista. O objetivo declarado da nova paralisação, conforme a liderança das centrais sindicais, seria que “as paralisações e manifestações são instrumentos que estamos usando para
pressionar e ter uma negociação mais séria em Brasília, que não leve a um
prejuízo aos trabalhadores”[22].
Dessa vez, contudo, a adesão popular seria menor, registrando-se um menor
volume de pessoas nas ruas. A causa básica seria pragmática: em diversas
cidades, trabalhadores do setor de transporte resolveram não aderir à paralisação de junho, devido às multas recebidas pela greve anterior. Enfraquecia-se,
desse modo, o movimento. A baixa adesão da paralisação geral de 30 de junho
demonstraria a ocorrência de certo desgaste da mobilização sindical, visto que,
na prática, esta apresentava efeito praticamente nulo sobre a determinação
governista em pôr em andamento as reformas que propunha. Havia também o
desprestigio social do grupo político de oposição ao governo, que estava por
trás das mobilizações: os trabalhistas estavam com a imagem pública prejudicada
pelos casos de corrupção que tomavam as notícias da imprensa, acerca das
sucessivas etapas da “Operação Lava Jato”, desencadeada pela Polícia Federal.
Esse desgaste faria emergir uma nova
narrativa, em franca oposição ao movimento trabalhista, mas em diálogo com o
senso comum popular que estava em dúvida se criticava o governo Temer (e
rejeitava seu programa reformista) ou se ignorava os trabalhistas e suas teses,
devido ao fato de estarem maculados pela corrupção sistêmica. A cobertura
jornalística da paralisação de 30 de junho feita pelo “IG Último Segundo”
exemplifica bem a narrativa anti-petista e antissindicalista que ganhava espaço
na sociedade: “Em pleno dia útil, a população brasileira demonstrou que prefere
trabalhar, em vez de servir de massa de manobra para sindicatos e partidos de
oposição”, dizia a reportagem. Na reportagem, a manifestação na Avenida
Paulista é chamada de “grupelhos oposicionistas”, e os sindicatos de
“apoiadores dos 13 anos dos governos mais corruptos de toda a história
brasileira”, cujo objetivo seria “fazer com que todos esses ‘militantes’
vermelhos voltem a mamar nas tetas do governo, de preferência sob uma nova
gestão do ex-presidente Lula”[23]. Se
a tese do golpe não se disseminou entre os trabalhadores comuns, a tese do
oportunismo sindical “vermelho” ganharia adeptos (em especial, porque um dos
pontos da proposta de reforma trabalhista era o fim da obrigatoriedade do
imposto sindical) – não tardaria para que os adeptos dessa tese logo estivessem
prontos a se filiar a alguma nova liderança popular que viesse a surgir, a
partir da retórica moral da anticorrupção. Enquanto o isso, o PL 6787/2016
tramitava pelo Senado, tendo sido aprovado em uma tumultuada sessão – luzes no
Plenário foram desligadas, senadoras da oposição ocuparam a Mesa Diretora por mais de seis horas, houve
discussão, troca de farpas e protestos – na noite do dia 11 de julho de 2017,
por 50 votos favoráveis e 26 contra[24].
Após isso, o projeto de reforma trabalhista
seria sancionado pela presidência da República, entrando em vigor em novembro
de 2017. Vitória do governo. Vitória do empresariado e dos sindicatos patronais.
Silêncio dos trabalhadores em meio ao barulho dos sindicatos e dos políticos
trabalhistas da oposição ao governo Temer. Desse modo, 2017 foi o ano em que o
projeto da “Ponte para o Futuro” fincou a coluna da reforma trabalhista e, de
quebra, ainda demonstrava o desgaste social dos trabalhistas, que se
mobilizavam via centrais sindicais. A dúvida óbvia seria acerca dos resultados
práticos dessa flexibilização da CLT, especialmente no que dizia aos altos
índices de desemprego que teimavam em manter movimentação ascendente.
[1]
FRENTE CSE, ABRAS Brasil. Disponível em: http://www.abras.com.br/frente-cse/apresentacao/.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[2]
HISTÓRIA DA FRENTE PARLAMENTAR CSE. Disponível em: http://cse.org.br/. Acesso em: 10 fev.
2019.
[3]
ESTATUTO DA FRENTE PARLAMENTAR MISTA EM DEFESA DO COMÉRCIO, SERVIÇO E
EMPREENDEDORISMO. Disponível em: http://www.abras.com.br/pdf/estatuto_da_frente_parlamentar.pdf.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[4]
OBJETIVOS DA FRENTE CSE. Disponível em: http://www.abras.com.br/pdf/prioridades_frente_cse.pdf.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[5]
HISTÓRIA DA FRENTE PARLAMENTAR CSE, op.
cit.
[6]
CÂMARA DOS DEPUTADOS, PL 6787/2016. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2122076.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[7]
PARECER AO PROJETO DE LEI 6787/2016. Relator Deputado Rogério Marinho.
Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=9126D4F84B7BF865F3B78E48D4990419.proposicoesWebExterno2?codteor=1544961&filename=Tramitacao-PL+6787/2016.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[8] Ibidem, p. 21-26.
[9] Ibidem, p. 19-21.
[10]
FOLIÕES E BLOCOS PROTESTAM CONTRA O PRESIDENTE TEMER NO CARNAVAL PELO PAÍS, G1 Globo.com, 28 fev. 2017. Disponível
em: https://g1.globo.com/carnaval/2017/noticia/folioes-e-blocos-protestam-contra-o-presidente-temer-no-carnaval-pelo-pais.ghtml.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[11]
AS GREVES E AS MANIFESTAÇÕESPELO BRASIL EM 15 DE MARÇO, Revista Exame, Brasil, 15 mar. 2017. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/ao-vivo-a-greve-geral-e-os-protestos-pelo-brasil-nesta-quarta/.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[12]
ORIENTADORES DO SEBRAE AJUDARÃO MPE NO ACESSO A R$ 8,8 BI EM CRÉDITO NO BB, Banco do Brasil, Micro e pequenas
empresas, 15 mar. 2017. Disponível em: https://www.bb.com.br/pbb/pagina-inicial/imprensa/n/54631/orientadores-do-sebrae-ajudarao-mpe-no-acesso-a-r-8-8-bi-em-credito-no-bb#/.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[13]
TEMER DIS QUE REFORMA DA PREVIDÊNCIA ‘NÃO VAI TIRAR DIREITO DE NINGUÉM’, G1 Globo.com, Política, 15 mar. 2017.
Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/desemprego-tera-reducao-significativa-a-partir-do-4-trimestre-de-2017-diz-temer.ghtml.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[14]
LULA DISCURSA EM SP EM DIA DE GREVE E PROTESTOS PELO PAÍS, Revista Exame, Brasil, 15 mar. 2017. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/lula-discursa-em-sp-em-dia-de-greve-e-protestos-pelo-pais/.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[15]
GOVERNO SOFRE DERROTA E NÃO CONSEGUE ACELERAR REFORMA TRABALHISTA, Folha UOL, Mercado, 18 abr. 2017.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/04/1876666-governo-sofre-derrota-e-nao-consegue-acelerar-reforma-trabalhista.shtml.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[16]
GOVERNO MANOBRA E APROVA URGÊNCIA NA TRAMITAÇÃO DA REFORMA TRABALHISTA, Folha UOL, Mercado, 20 abr. 2017.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/04/1877010-governo-manobra-e-aprova-urgencia-na-tramitacao-da-reforma-trabalhista.shtml.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[17]
CÂMARA APROVA REFORMA TRABALHISTA, QUE SEGUIRÁ PARAO SENADO, El País, Brasil, Brasília, 28 abr. 2017.
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/25/politica/1493123656_335660.html.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[18]
COMO FOI A GREVE GERAL CONTRA AS REFORMAS DE TEMER EM 28/04, Revista Exame, Brasil, 28 abr. 2017.
Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/ao-vivo-a-greve-geral-e-os-protestos-pelo-brasil-nesta-sexta/.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[19]
TEMER DIZ QUE MANTERÁ REFORMAS APESAR DAS MANIFESTAÇÕES, Revista Exame, Brasil, 28 abr. 2017. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/temer-diz-que-mantera-reformas-apesar-das-manifestacoes/.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[20] Ibidem.
[21]
PRESIDENTE TEMER DIVULGA MENSAGEM AOS TRABALHADORES BRASILEIROS, TV Planalto, 01 mai. 2017. Disponível
em: https://www.youtube.com/watch?v=0WXsQABj2cM.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[22]
NOVA GREVE GERAL É CONVOCADA CONTRA REFORMAS DA PREVIDÊNCIA E TRABALHISTA, Agência Brasil, Geral, Brasília, 30 jun.
2017. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-06/nova-greve-geral-e-convocada-contra-reformas-da-previdencia-e-trabalhista.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[23]
“GREVE GERAL” CONTRA AS REFORMAS E MICHEL TEMER VIRA UM FIASCO, IG Último Segundo, São Paulo, 30 jun.
2017. Disponível em: https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2017-06-30/greve-geral-fiasco.html.
Acesso em: 10 fev. 2019.
[24]
SENADO APROVA REFORMA TRABALHISTA; TEXTO SEGUE PARA SANÇÃO DE TEMER, G1 Globo.com, Política, Brasília, 11
jul. 2017. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/apos-sessao-tumultuada-senado-aprova-texto-base-da-reforma-trabalhista.ghtml.
Acesso em: 10 fev. 2019.
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